
6 horas e trinta minutos.
Domingo.
No Alto -Alentejo a estas horas, o Sol já irrompe pelas janelas, anunciando o dia quente.
A I. continua com febre. 38º graus. Tem dificuldades em dormir. Levanto-me e subo ao piso de cima, à cozinha. Vou buscar o xarope. Torno a descer. Novamente no quarto vejo que me esqueci da mediação. Regresso lá acima, pego na colher e começo novamente descer os enormes degraus em pedra que separam os pisos. Vou quase no fim da escada, quando de súbito .... não sei o que acontece, troco os pés. Baralham-se um no outro e eu estatelo-me no chão de pedra antiga, com um assustador
trrrrrr. Grito com dor pelo N. porque não me consigo levantar. Acredito que talvez tenha partido o pé.
7 horas e vinte minutos.
Ainda no mesmo domingo.
A caminho do Hospital de Portalegre, e a bola de carne que agora tomou o lugar do meu tornozelo, insiste em aumentar a intensidade da dor.
Quando lá chegamos, constato aliviada que não existe ninguem na sala à minha frente. Passo à triagem onde me diagnosticam como de "urgência normal", o que significa que posso ter um período de espera de 50 minutos até ser atendida. Mas espero afinal só uns meros 30, isto mesmo estando a sala de espera vazia. Ou melhor, as urgências em geral, como pude depois testemunhar. A minha médica é dum país de leste, insiste em me tratar por Maria, que é, efectivamente, o meu primeiro nome, mas que como bem se sabe, não é nome a sério. Mais de metade das portuguesas chamam-se Marias, e quase tantas não respondem por esse nome. Assim, passamos ainda uns segundos, com ela a falar comigo e eu achar que ela estava a falar com outra pessoa. Desfeito o equívoco sigo para o Rx, onde tenho de aguardar no corredor deserto porque "seguiu agora um senhor para fazer o TAC e o técnico é só um." Tento aconchegar-me o melhor possivel à cadeira de rodas e esquecer a dor que não para de crescer. Feito o exame e a promessa que me vêm buscar logo que a "doutora" tenha os resultados, fico sozinha numa sala enorme, no meio dum corredor cheio de cacifos tamanho XXL, onde não passa quase ninguem. Aliás todo o hospital parece um enorme e pobre cenário da Anatomia de Grey, em dia de descanso da equipa de filmagens.
De repente oiço o meu nome nos altifalantes, seguido dum "à Sala 1". Procuro o enfermeiro da promessa. E espero, tentando controlar a ansiedade e as dores. 1,2,3,4,5 ... 58,59... e nada. 1 minuto aguardar na ala deserta, e ninguem para me vir buscar. Meto mãos às rodas e ponho-me, com imensa dificuldade, em marcha. Inexplicavelmente nesse momento surjem no corredor uma quantidade surpreendente de pessoas, auxiliares, enfermeiros, até médicos, e nem um, repito nem um, me perguntou se precisava de ajuda. Valeu-me a senhora da limpeza, que indignada por eu ter de vir sózinha, chamou com severidade o meu tal amigo da promessa, que lhe respondeu no mesmo tom de revolta "não sabia que era esta senhora." Volto atrás para relembrar que, primeiro, fora eu, só lá estavam dentro mais 3 velhotes acamados, pelo que tenho dificuldades em acreditar que algum deles tivesse um nome semelhante ao meu ou em situação de serem chamados à sala 1, depois que sendo este o homem que me acompanhou desde a entrada ao Rx, não era ele suposto saber quem eu era. Isto para não falar do facto de sermos amigos, como ele insistia em afirmar no final de qualquer frase que me dirigia. Mas adiante.
Estamos novamente frente a frente. Ela insiste no Maria, e eu tenho dificuldade em a perceber, mesmo até em a ouvir. Estou a ficar mouca e para além disso, as dores começam atrofiar-me as capacidade de raciocínio. Tenho boas e más notícias, diz-me. Primeiro a boa, não está partido. Porra, penso de imediato, então qual serão as más?! As más, esclarece ela de imediato, é que vai doer muito mais. Ahhhh!!!!!, penso novamente, que sorte!!!!Uma médica optimista!!!!!! Aliás, continua ela, até era melhor estar partido. Resolvia-se melhor. Mas no sítio em que foi e como está vai doer mesmo muito. Muito mais até. Por dentro sorrio para a consistência de discurso da bicha.
Mais um minuto para me receitar uns medicamentos para as dores. Porque, afinal "vai doer mesmo, mesmo muito", para me dizer que apesar disso só os tomo se quiser, que não posso mexer o pé, e que sim, era bom ter umas canadianas, vulgo muletas, para me auxiliar os movimentos nos próximos dias, mas que não, no hospital não as posso requisitar, nas farmácias não se compram e noutro sítio, não, também não sabe porque ela nem é dali. Não???!!!! - ainda penso em dizer-lhe no meu melhor ar de surpresa, mas o sacana do pé não vai para melhor e o sarcasmo fica fraco perante as adversidades.
Assim, e sem qualquer prova do meu Rx ou um sedativo para atenuar a tal da dor que "vai doer mesmo, mesmo muito" (porra, já me doi mesmo, mesmo muito!!!) volto à luta com a cadeira, para sair da sala, uma vez mais repleta de médicos e enfermeiros, com absolutamente nada para fazer, mas incapazes de me acompanharem à porta, tendo desta feita sido um dos seguranças a alma caridosa a levar-me à família que esperava cá fora.
Hoje estou de regresso a casa, a Lisboa... ou melhor à linha de Cascais onde resido, e a tenho boas e más noticias. A má é que dói, mas dói mesmo, mesmo, mesmo muito, e a boa é que depois de ter ficado do tamanho duma bola de futebol, agora, está mais para o tronco de arbusto.
Ahhh ... e as canadianas vêm a caminho, por empréstimo de amiga da família!